quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

O lúdico na educação

As brincadeiras, os jogos e o “faz-de-conta” aparecem em nossa sociedade como um elemento constante da praxe infantil. A concepção empírica deste como parte de uma relação simbiótica com a criança é comum à maioria das pessoas e a relação criança-brincar cai na dimensão do habitual, do ordinário. Essa exclusão do brincar do domínio científico – ou dos objetos/fenômenos de relevância científica – é um equivoco que ultrapassa o dia-a-dia da sociedade adulta e turva a mente de educadores e dirigentes escolares. Piaget e Vygotsky estudaram a relação entre o desenvolvimento cognitivo infantil e as brincadeiras e jogos que as crianças aprendem/desenvolvem e lançaram linhas de pensamento importantes para o meio psicopedagógico.
Vygotsky defende a existência de uma relação estreita entre o jogo e o processo de aprendizagem. As relações culturais surgem, em seus estudos, revestidas de grande importância para a evolução da mente infantil e sua inserção na sociedade.
As brincadeiras têm um papel mediador entre a criança e o mundo exterior; dão-lhe subsidio para capturar o mundo em que vivem e interagir sobre ele. Segundo Vygotsky a percepção que as crianças têm do mundo está sempre mudando e evoluindo, constantemente elas de deparam com objetos e situações desconhecidas. Sua plena satisfação nunca é atingida e elas sentem a necessidade de compreender – e até controlar – as mudanças que a rodeiam. Uma das maneiras de fazerem isso, mesmo que sem a noção exata da motivação, é brincando.
"Ainda que se possa comparar a relação brincadeira-desenvolvimento à relação instrução-desenvolvimento, a brincadeira proporciona um campo muito mais amplo para as mudanças quanto a necessidades e consciência." (Vygotsky in Baquero, 1998:103).
Nas brincadeiras, enfatizando-se as de faz-de-conta, as crianças conseguem simbolizar a realidade concreta e iniciar um processo de adaptação e internalização do mundo adulto. As brincadeiras de carrinho, por exemplo, são uma representação de como elas percebem a existência de carros, motoristas e pedestres. Os pais não precisam explicar para os filhos o que é um automóvel para que eles brinquem com miniaturas de carros. As crianças ao brincarem com seus veículos estão desenvolvendo e internalizando a noção de um objeto que não tem acesso ou compreendem superficialmente.
Elas, de uma maneira própria, expandem sua relação com o mundo. Modelam protótipos e capturam fragmentos da sociedade onde habitam. As complexas regras e os relacionamentos do universo dos adultos são transcritas em brincadeiras de casinha, médico, bombeiro, polícia contra ladrão e etc. Para Vygotsky o imaginário infantil – no que concerne ao faz-de-conta – não surge espontaneamente, como um insight, mas é fruto de uma situação percebida, que desperta interesse na criança e a leva a agir. Nesse processo de observação e compreensão de novas situações, há um movimento de abstração e memorização, estimulando a mente e os processos cognitivos.
"No desenvolvimento a imitação e o ensino desempenham um papel de primeira importância. Põem em evidência as qualidades especificamente humanas do cérebro e conduzem a criança a atingir novos níveis de desenvolvimento. A criança fará amanhã sozinha aquilo que hoje é capaz de fazer em cooperação. Por conseguinte, o único tipo correto de pedagogia é aquele que segue em avanço relativamente ao desenvolvimento e o guia; deve ter por objetivo não as funções maduras, mas as funções em vias de maturação" (Vygotsky, 1979:138).
A criação através da observação fomenta a criatividade, levando a criança a transformar objetos e conceitos em brinquedos e fantasias, respeitando, mesmo de maneira precária, os preceitos da realidade. Ela consegue imprimir sua marca nessa transição e situar-se como um ser ativo na sociedade. O que a criança vê e escuta constitui pedra fundamental no seu processo de amadurecimento cognitivo, pois através deles ela concebe fantasias do real, as quais gradativamente vão sendo substituídas por percepções concretas do meio onde vive.
“Todos conhecemos o grande papel que nos jogos da criança desempenha a imitação, com muita freqüência estes jogos são apenas um eco do que as crianças viram e escutaram aos adultos, não obstante estes elementos da sua experiência anterior nunca se reproduzem no jogo de forma absolutamente igual e como acontecem na realidade. O jogo da criança não é uma recordação simples do vivido, mas sim a transformação criadora das impressões para a formação de uma nova realidade que responda às exigências e inclinações da própria criança” (Vygotsky, 1999:12).
Vygotsky define uma criança ativa que troca informações em uma via de sentido duplo com o mundo exterior e consegue definir-se como individuo social de maneira paulatina. Nós jogos ele aponta os primórdios do desenvolvimento psicosocial infantil, onde a criança percebe-se como parte de meio complexo, o qual ela vai compreendendo de uma maneira lúdica, sem compromissos formais.
Para Piaget a brincadeira infantil é uma assimilação do real ao eu, não sendo, como defendia Vygotsky, uma função adaptativa. Para ele a criança sente uma necessidade latente de adaptar-se ao mundo das pessoas adultas, de entender suas regras e compreender objetos e situações que lhe são estranhas. Nesse processo de adaptação ela não consegue satisfazer plenamente suas necessidades intelectuais e afetivas. A brincadeira surge, nesse contexto, como uma atividade de transformação do real, por assimilação às necessidades cognitivas da criança. Piaget defende que a criança brinca porque é “indispensável ao seu equilíbrio afetivo e intelectual que possa dispor de um setor de atividade cuja motivação não seja a adaptação ao real senão, pelo contrário, a assimilação do real ao eu, sem coações nem sanções [...]” (Piaget e Inhelder, 1989:52).
Para Piaget nas brincadeiras de faz-de-conta – que ele define como jogo simbólico – as crianças criam símbolos lúdicos que funcionam com uma espécie de linguagem interior, que permite a elas reviver e repensar acontecimentos significativos. Elas vão além do repensar e revivem os acontecimentos, valendo-se do simbolismo direto da brincadeira.  O jogo simbólico faz parte de uma função importante para o desenvolvimento cognitivo, a função simbólica. Essa função aparece a partir dos 2 anos de idade e da à criança a capacidade de representar um objeto( um acontecimento, uma situação, um sentimento, etc) por intermédio de outra coisa, como a linguagem, o desenho ou uma ação simbólica.
Na fase pré-escolar, o raciocínio lógico ainda não é suficiente para que a criança compreenda a realidade que se desenvolve e a engloba. Fantasiar ainda é para ela mais eficiente que constatar e explicar.   Então, pelo jogo simbólico, a criança exercita não só sua capacidade de pensar, ou seja, representar simbolicamente suas ações, mas também, suas habilidades motoras. Quando a criança estiver mais velha, é possível estimular a diminuição da atividade centrada em si própria, para que ela vá adquirindo uma socialização crescente e uma abstração dos objetos do mundo real.
Ao transpor essas teorias para a dimensão da pedagogia, temos, no brincar, uma importante ferramenta do processo educativo. O educador que concebe as brincadeiras além da esfera da diversão consegue mobilizar a atenção das crianças com maior facilidade, pois está lhe dando meios de apreender e entender o mundo de uma maneira que ela já traz na sua experiência de vida. Para tanto, é preciso, inicialmente, considerar as brincadeiras que as crianças trazem de casa ou da rua e que organizam independentemente do adulto, como um diagnóstico daquilo que já conhecem. As brincadeiras não devem acontecer somente como um evento solto, fora do contexto educativo. A escola deve providenciar locais adequados, materiais lúdicos e uma reestruturação dos processos institucionais para suportar essa nova abordagem educacional.

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